
Os números reforçam a dimensão do problema. Dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) apontam que o Brasil contabilizou mais de 16 mil eventos extremos entre 2020 e 2023. As secas lideraram os registros, respondendo por metade das ocorrências no período.
Para a CNI, a adaptação às mudanças climáticas deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a integrar a estratégia de sobrevivência das empresas. O estudo recomenda que o setor produtivo incorpore a gestão de riscos climáticos ao planejamento corporativo, a fim de reduzir impactos na produção e evitar perdas de competitividade.
A publicação identifica setores mais suscetíveis aos efeitos do clima. Na indústria de alimentos, por exemplo, a dependência das condições meteorológicas e da disponibilidade de água aumenta a vulnerabilidade diante de secas prolongadas, enchentes e ondas de calor. O guia sugere investimentos em tecnologias de previsão, práticas de conservação do solo e modernização da infraestrutura de armazenamento e transporte.
No setor de óleo e gás, a preocupação está concentrada nas áreas costeiras e marítimas, onde plataformas, refinarias e terminais podem ser afetados pela elevação do nível do mar e pelo aumento da intensidade das tempestades. Entre as recomendações estão o reforço das estruturas, o uso de novas tecnologias para gestão hídrica e a diversificação dos investimentos em fontes renováveis.
Já a cadeia têxtil é impactada tanto pela produção de matérias-primas quanto pelo elevado consumo de água e energia em seus processos industriais. O documento defende medidas como reúso de água, modernização de equipamentos e ampliação da economia circular, com reciclagem de resíduos e reaproveitamento de materiais.
Além dos riscos físicos, a indústria também precisará se adaptar às novas exigências regulatórias. A criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) deverá impor limites às emissões de gases de efeito estufa, exigindo que empresas que ultrapassarem as metas adquiram créditos de compensação.
A entidade alerta ainda que a pressão por práticas sustentáveis vem aumentando no mercado internacional. Empresas que não conseguirem comprovar compromissos ambientais poderão enfrentar barreiras comerciais, perder espaço em cadeias globais de suprimentos e ter mais dificuldades para acessar linhas de financiamento.
Durante o evento de lançamento do guia, especialistas defenderam maior integração entre o setor produtivo e o poder público para enfrentar os impactos climáticos. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a ausência de medidas de adaptação e mitigação pode resultar em perdas de R$ 17,1 trilhões no Produto Interno Bruto (PIB) do país até 2050, além da eliminação de cerca de 4,4 milhões de postos de trabalho.