A limitação da infraestrutura de transmissão de energia tem dificultado a expansão de novos empreendimentos de geração elétrica no Brasil, especialmente os voltados às fontes renováveis. Em diversas regiões do país, a rede opera sem capacidade para receber novos projetos, cenário que compromete investimentos e reduz o aproveitamento do potencial da matriz energética nacional.
Um exemplo desse problema foi a decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de considerar inviável a conexão de um complexo com 25 usinas solares que uma empresa norte-americana pretendia instalar em Buritizeiro (MG). O empreendimento teria mais de 1 gigawatt (GW) de capacidade instalada, mas, segundo a agência, não há margem disponível para escoamento da energia ao Sistema Interligado Nacional (SIN) nos próximos quatro anos.
O Nordeste é uma das regiões mais afetadas pelo gargalo. Embora concentre mais de 25% da capacidade de geração de eletricidade do país e tenha 42,5% dessa produção proveniente das fontes eólica e solar, os 226 pontos de conexão existentes já operam sem disponibilidade para novos empreendimentos até 2030.
A insuficiência da rede também provoca desperdício de energia. Em 2025, mais de 20% da produção das usinas eólicas e solares deixou de ser aproveitada devido ao desequilíbrio entre oferta e demanda. Estimativas da Volt Robotics apontam que esse volume corresponde a cerca de dez meses de geração da hidrelétrica de Belo Monte, energia suficiente para abastecer toda a frota brasileira de aproximadamente 700 mil veículos elétricos ou manter 40 grandes data centers em funcionamento durante quase um ano.
Para preservar a estabilidade do sistema elétrico, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) adota o chamado curtailment, procedimento que determina a redução temporária da geração em usinas quando há excesso de energia em determinados trechos da rede. Nesses casos, turbinas eólicas, hidrelétricas e até parques solares têm a produção limitada, mesmo quando as condições climáticas são favoráveis.
O avanço da geração distribuída, impulsionado pela instalação de painéis solares em residências e propriedades rurais, também altera a dinâmica do sistema. Como o ONS não controla diretamente essa modalidade de geração, os cortes de produção ocorrem com maior frequência em grandes parques eólicos e outros empreendimentos centralizados.
Hoje, as fontes renováveis representam 86,8% dos 783,3 terawatt-hora (TWh) produzidos pela matriz elétrica brasileira. Entretanto, a falta de capacidade de transmissão impede que parte dessa energia seja aproveitada e reduz a viabilidade econômica de novos investimentos no setor.
Na tentativa de ampliar a flexibilidade do sistema, o governo federal prevê realizar, em dezembro, o primeiro leilão de baterias para armazenamento de energia no país. As diretrizes da iniciativa foram divulgadas no início de junho e permitem a instalação de grandes sistemas capazes de armazenar eletricidade nos períodos de maior geração e disponibilizá-la quando houver aumento da demanda.
Especialistas avaliam que apenas ampliar a malha de transmissão não será suficiente para resolver o problema. A expansão da infraestrutura deve ocorrer de forma integrada ao crescimento da oferta e do consumo de energia, permitindo maior equilíbrio entre geração, armazenamento e distribuição.
Essa necessidade também aparece no Plano Decenal de Energia (PDE) 2026-2035, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O documento estima investimentos de R$ 116,9 bilhões no setor, sendo R$ 78 bilhões destinados à ampliação de aproximadamente 29 mil quilômetros de linhas de transmissão e R$ 38,9 bilhões para construção e modernização de subestações.